quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dica de filme sobre o tema da redação do ENEM

Quer um filme para ajudar a clarear a mente a respeito do tema da redação do ENEM?
For Colored Girls
https://www.facebook.com/ForColoredGirls?fref=ts

Frases sombrias de uma mulher que não teve adolescência
Notas dispersas sem ritmo, sem ritmo.
Em uma sintonia confusa
O fardo que recai em uma garota negra
É engraçado, engraçado.
É histérico, a melodia dessa dança
Não diga a ninguém, a ninguém.
Dançando sobre cervejas e cacos
Deve ser como uma casa fantasma
Outra músicas sem cantoras
Letras sem vozes
Em um solo ininterrupto
Numa performance invisível.
Somos fantasmas?
As crianças do horror?
Uma piada? Não diga a ninguém,
Fique calada.
Somos animais?
Enlouquecemos?
Não ouço nada
Além de gritos loucos
E o suave som da morte.
E você me prometeu,
Prometeu a alguém,
Qualquer um,
Cantar uma música Black.
Deixe-a se conhecer,
Conhecê-lo.
Que cante sozinha e lute
Arrastada na luta.
Tempos difíceis seguem na canção da vida.
Ela está morta há tanto tempo,
Enclausurada por tanto tempo,
Ela não reconhece o som da própria voz,
Beleza infinita,
Ritmada em notas dispersas,
Sem sintonia.
Cantai aos suspiros,
Cantai a canção das possibilidades,
Cantai o evangelho dos justos,
Deixe-a renascer.
Que renasça e seja tratada bem.
Que renasça e seja tratada bem.
Isto é para garotas negras,
Para garotas negras
Que já pensaram em suicídio,
Pensaram em suicídio
Mas se transformaram e superaram tudo.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, introdução)


Um estuprador não tem de ser um estranho
Para ser legítimo
Alguém que você nunca viu.
Mas se você estiver em público com ele
Dançando uma música,
Dando um beijo leve de tchau
Com a boca fechada
Prestar queixa seria tão difícil
Como tentar manter as pernas fechadas,
Enquanto tentam enfiar um “trem” em você.
Estes homens, nossos amigos
Que cheiram bem
Mantêm-se empregados
E nos levam para jantar fora.
Trancam a porta atrás de você
E nós somos deixadas
Com as cicatrizes.
Ser traídas por homens
Que nos conhecem.
E esperamos tal estranho
Que sempre pensamos
Que estava por vir,
Que submeteríamos
Devemos saber
Mulheres abdicam todos os direitos pessoais
Na presença de um homem
Que poderia aparentemente
Ser considerado um estuprador
Especialmente se ele tem sido considerado um amigo.
E não é menos digna
De ser surrada
Dentro de uma polegada de sua vida
Ser publicamente humilhada
E abusada sexualmente.
Então, o desconhecido,
Que sempre pensávamos que seria,
Nunca apareceu
Faz desejar com que a natureza do estupro mude
Agora podemos encontrá-los
Em círculos de amizade que freqüentamos
Vê-los no café com alguém que nós conhecemos
Poderíamos até mesmo recebê-los no jantar
E ser estupradas em nossas próprias casas.
Por um convite
Por um convite...

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, depoimento de uma mulher estuprada em sua própria casa, por um conhecido)


Tudo o que me lembro
Tubos, mesas, janelas caiadas
A velha e suja, limpa mais uma vez,
Olhos rastejando para cima de mim
Olhos rolando em minhas coxas
Cavalos de metal roendo
Meus restos mortos...
Saia de mim todo esse sangue, ossos...
Despedaçados como cones de sorvete moles
Eu não poderia tê-la olhando para mim grávida,
Não poderia ter os meus amigos vendo isso
Morrendo, pendurado entre as minhas pernas.
Então, eu não disse nada,
Nem um suspiro
Ou um grito rápido para tirar aqueles olhos de cima de mim,
Tirar aquelas hastes de aço de mim
Isso dói
Isso dói.
Ninguém veio
Porque ninguém sabia.
Uma vez
Eu estava grávida
E envergonhada
De mim mesma.
(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, depoimento de uma mulher que tinha recém realizado um aborto)


- Aparentemente você não deve ter vindo de mim. Ele só lhe deixou aquele dinheiro prá que você pudesse me controlar como ele fez. Ele costumava colocar as mãos em cima do meu vestido, me dizia que ele era a única que ele precisava. Ele me dizia que eu era feia. E quando eu tinha 15 anos ele me deu a um homem branco. Ele disse que queria lindas netas.
- Não.
- Não como eu. Ele disse: “Não durmo com a escuridão.” E então você veio.
- Mamãe, por favor, pare de mentir.
- Ele tocou em você.
- Cale-se.
- Ele tocou em você também. Eu posso dizer. Eu posso sentir isso em você.
- Você não me conhece.
- Eu conheço. Eu sei quem você é. Costumava-se usar estas borboletas laranjas...
- Eu sou uma coquete deliberada.
- Lantejoula e água...
- Que nunca poderia fazer sem...
- Colocado entre os seios à vista...
- O que eu quero... eu queria ser inesquecível.
- Rosas de seda nas orelhas. A paixão floresce de você. Serpenteava pela rua Hoover.
- Eu queria ser uma memória. Uma ferida a  cada homem. Arrogante prá me querer.
- O passado obscuro, casas fechadas. Onde mulheres de Louisiana descascavam ervilhas por 3h. Mandavam os filhos assoviar.
- Eu sou a ira das mulheres nas janelas, máscaras de lã, cortinas de renda. Desespero camuflando e estrias.
- Você brilhava no calor. Parecia procurando por uma carona, quando você não estava, e olhava para todos os homens, que não branco ou fraco.
- Eu brilhava... Ainda bem que sou desejada.
- Você mostrou a coxa debaixo da saia ao atravessar a rua. Desacelerou para ser considerada.
- Para sentir o corpo e o espírito. Rasgou tão facilmente misturados com eles.
- E eu vi você.
- E eles estavam tão felizes...
- O estresse gravado nos cantos da boca sugeriu lágrimas, beijos frescos que não traziam nada de bom.
- Completos e molhados...
- Forrados com penas iridescentes, os pêlos em torno do umbigo.
- E eu beijei com reverência.
- Pareciam dançar e nunca disse que sabia que por trás da sua cintura, ansiava para ser tomada.
- Você não me conhece.
- Eu te conheço. Você é o diabo.
- Você não me conhece. Você não me conhece. Você acha que é tão sagrada? Você o deixou fazer isso comigo! Você é igualzinha a mim. Você é igualzinha a mim.
(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, diálogo entre mãe e filha)

Dormindo com todos esses homens pensando que é só sexo.
Não é só sexo, querida.
Tudo tem uma raiz.
E você tem que encontrá-la
Para arrancá-la.
Às 04:30 aparecem movendo seus membros que te aprisionam.
Você suspira afirmando o homem esculpido
E prepara um banho
Com o escuro cheiro de óleo egípcio
E a água florida para remover seu cheiro
Para lavar o brilho
Para ver as borboletas derreterem em espuma
E o estresse cair sob as nádegas
Como pedras lisas em um riacho do Missouri.
Descansando na água
Você vai voltar a ser você mesma
Mulher comum com muitas tranças
Com as pernas grandes e lábios carnudos, normal.
E aqueles que são vítimas do deslumbramento
Dos quadris pintados com flores de laranjeira
E pulsos com fragrância de magnólia
Eles só queriam não mais do que estar entre as coxas
E haviam planejado de sair antes do amanhecer
E quando terminar de escrever a história de sua façanha
Em um diário de bordados com lírio e opala
Você colocará a rosa atrás da orelha
E vai chorar até dormir.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’)


Você não pode amar alguém sofrendo com muita dor.
Eu estou aprendendo cada vez mais e mais.
Eu não sei o que há de errado comigo.
Perdi o contato com a realidade e não sei quem fez isso.
Pensei que sabia, mas eu era estúpida.
Eu era capaz de ser ferida
E isso não é real.
Não mais.
Nós devemos ser imunes
Se continuarmos vivas.
Como estamos vivas?
A minha dependência de outros seres vivos por amor.
Eu sobrevivo por causa da intimidade
E de manhã tudo o que eu tenho vai embora.
É tudo o que eu tenho.
Estar viva.
E, sendo uma mulher,
Ser negra é um dilema metafísico
Que não entendi ainda.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’)

Uma vez que haviam bolas quadrum
Elegância em St. Louis
Motim dos mulatos
Jogados Mississipi abaixo
Para Memphis, New Orleans
E os crepes à margem do pântano
Quando o pobre lixo branco iria cantar
Gemido estranho com tons líquidos
Através dos pântanos
Sechita tinha ouvido falar dessas coisas
Ela empurrou a poeira Delta com as unhas pintadas
Carnaval nativo estava tocando Natchez
Sechita, deusa egípcia da criatividade
Segundo milênio
Jogou os cabelos pesados do coque pelo pescoço
Relato histórico
Espalhando óleo de carmim nas bochechas
Sobrancelhas depiladas
E inconscientemente serviu o último uísque no copo
O espelho quebrado que ela usou para decorar o seu rosto
Fazendo sua testa inclinar para trás
Suas bochechas pareciam afundadas
Sechita tinha aprendido a ser tolerante
Com as distorções
Mas a poeira pesada do Delta
Deixou uma pontinha de grão e trevas
Em cada um de seus vestidos
Sechita estava ansiosa para voltar a St. Louis.
A terra lá não rastreava do solo
Em sua alma
Pelo menos em St. Louis
A terra foi comprada em uma loja
De segunda mão
Sechita podia ouvir gritos dos camponeses
E tapa nas costas
Ela pegou a saia coberta de lantejoulas
E fez seu rosto imóvel
Como Nefertiti aproximando-se da própria sepultura.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’)


Alguém quase foi embora
Com todas as minhas coisas
E nem se preocupou para deixar um bilhete dizendo:
‘eu estava atrasado para minha conversa solo’
Ou elas eram muito pequenas para minha saia brega
O que alguém pode fazer com algo sem valor de mercado?
Você recebeu algum centavo pelas minhas coisas?
Ei, cara,
Onde você está indo com todas as minhas coisas?
Esta é a vida de uma mulher
E eu preciso das minhas coisas para me bajular.
Juro por Deus, alguém quase saiu correndo
Com todas as minhas coisas
E eu não trouxe nada, mas ele levou
A bunda perfeita para o meu homem
E nada disso é dele
Isto é meu
Coisas de Juanita
Esse é o meu nome,
Agora me dê as minhas coisas
Eu vejo você esconder meu riso,
E eu sento com pernas abertas, por vezes
Para dar à minha vagina um pouco de luz.
Esta é uma perna delicada e lunático beijo
Eu devo escolher
Então você não pode me ter
A menos que eu me entregue
E eu estava fazendo tudo isso
Até que você fugiu com uma coisa boa.
E quem é esta pela qual você me deixou?
Alguma vagabunda com uma má atitude.
Eu quero as minhas coisas
Eu quero o meu braço com a cicatriz de ferro quente
Eu quero a minha perna com a picada de pulga
Sim, eu quero as minhas coisas.
Eu quero meus pés calejados
E a resposta rápida em minha boca
Eu quero minhas próprias coisas como eu amava.
Alguém quase fugiu com todas as minhas coisas
E eu estava lá olhando para mim o tempo todo.
Não foi um espírito que fugiu com todas as minhas coisas
Era um homem cujo ego
Andou em volta como uma sombra Rodam,
Era um homem mais rápido do que a minha inocência,
Era um amante para quem dei muito espaço
Quase fugiu com todas as minhas coisas
E a que foi com ele
Não sabe que pegou.
Estou gritando:
“Isso é meu!”
E ele nem sequer sabe que os tem.
Minhas coisas são o tesouro anonimamente roubado do ano.
Você sabia que alguém quase fugiu comigo?
Eu, com um saco de plástico debaixo do braço,
Eu, Juanita Sims,
Alguém quase fugiu com todas as minhas coisas.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, depoimento de Juanita Sims, abandonada pelo homem com quem morava)

Desde que percebi
Que havia alguém chamando ‘a garota negra’
Ou uma mulher má
Cadela ou intrometida
Venho tentando não ser assim
E deixar a amargura para os outros
Vindo alguém para me amar
Sem cicatrizes profundas de cheiro desagradável
A partir do lixo
Ou ficar gritando na rua
Onde lunáticos sussurram:
‘vagabunda, vagabunda, cadela’
Saindo daqui com tudo isso
Eu não tinha nada para você.

Eu trouxe a você a alegria que encontrei
E eu encontrei alegria
E então há essa mulher que te magoa
A quem você deixou três a quatro vezes
E então voltou
Depois de colocar o meu coração na sola do seu sapato.
Só voltou ao lugar que machucou
E eu não tenho nada.
Então, fui até alguém que tinha algo para mim
Mas nenhum deles era você.
Tenho um verdadeiro amor morto aqui para você agora.
Porque não sei mais
Como evitar o meu rosto coberto de lágrimas
Porque eu tinha me convencido
De que as garotas negras não tem direito à tristeza.
Eu vivi para você.
Eu sei que fiz isso por mim, mas eu não agüentava.
Não poderia suportar, lamentar e ser negra ao mesmo tempo.
É tão redundante no mundo moderno.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, depoimento de Juanita Sims)


Poupe a sua desculpa
Uma coisa que eu não preciso são mais desculpas.
Eu tenho a minha desculpa recebida na porta da frente
Você pode ficar com a sua.
Tenho que me livrar delas.
Não posso nem chegar ao meu guarda-roupa
De tantas desculpas.
Quer saber?
Vou colocar um cartaz.
Um cartaz na porta. Melhor ainda, mensagem de voz.
A minha mensagem de voz:
‘Se me ligou para pedir desculpas,
Ligue para outro
Porque eu não as uso mais’
Vai deixar: Sinto muito, não era a minha intenção
E como poderia saber sobre isso?
Ir à pé por uma rua escura e mofada do Brooklyn, Carl?
Bem, vou fazer exatamente o que eu quero
E não vou me arrepender de nada disso.
Vamos presumir que o arrependimento acalma a alma.
Vou acalmar a minha.
Sabe, você sempre foi incoerente
Fazendo as coisas e depois dizer que sente,
Pulsando o coração até a morte,
Falando sobre suas desculpas.
Sim, bem, não vou chamá-lo.
Não serei gentil.
Vou levantar a minha voz,
Vou gritar, berrar,
Vou quebrar as coisas,
Aumentarei o ronco do motor e contarei os seus segredos
Sobre você na sua cara
 E eu não vou me arrepender de nada disso.
Eu te amava mesmo.
Eu estava mesmo entregue.
Nem mesmo estou arrependida de você estar arrependido.
Você pode levar toda a sua culpa e toda a sua sujeira
E fazer o que quiser com ela
Só não dá para mim
Não posso ter outra desculpa.
Da próxima vez, Carl, admita
Admita que esteja mal
Admita que seja mal
Que você é baixo, insignificante e desprezível
E se não consegue se endireitar
Em vez de lamentar
Alegre-se de ser você mesmo
Quando eu voltar quero que tenha partido
E leve seu HIV com você.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, depoimento de Jo, cujo marido a traía com outros homens e lhe transmitiu o vírus HIV)

As mulheres se doam tanto
Apenas dão muito de seu poder.
Pode acontecer com qualquer um de nós
Qualquer um que está apaixonado.

Meu amor é lindo demais
 para tê-lo jogado de volta na minha cara.
Meu amor é muito sagrado
para tê-lo jogado de volta na minha cara.
Meu amor é muito mágico
para tê-lo jogado de volta na minha cara.
Meu amor é muito complicado
para tê-lo jogado de volta na minha cara.
Meu amor é muito musical
para tê-lo jogado de volta na minha cara.
Meu amor é muito sábado à noite
para tê-lo jogado de volta na minha cara.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’)

Todas nós temos essas histórias de desculpas, não é?
Ouça, na semana passada meu ex veio e disse:
‘querida, não sei como consegui o seu número, desculpe-me’.
Não, não, é o seguinte:
‘querida, você sabe, eu estava doidão, sinto muito.’
‘ Sou apenas humano. Nossas fraquezas é o que nos faz humanos. Se fôssemos perfeitos não teríamos nada para lutar. Então você poderia me perdoar, porque eu lamento.’
É isso. ‘Eu faço o que eu faço porque achei que poderia agüentar. Não? Sinto muito.’
‘Agora eu sei que você sabe que eu te amo. Mas não vou te amar do jeito que você quer que eu te ame. Sinto muito.’
‘Cale a boca, cadela. Eu te disse que estava arrependido.’

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’)

Eu me perguntei
Como pude deixar isso acontecer.
Percebi...
Eu estava sentindo falta de algo
Alguma coisa prometida
Algo tão importante
Uma mão na minha
Dedos perto da minha testa,
Forte, frio, movendo-se
Fazendo-me plena, consistente, pura.
Todo o divino entrando em mim,
Fazendo abrir-me.
Estava sentindo falta de algo.
-Alguma coisa prometida
-Alguma coisa livre.
-Uma mão na minha.
-Eu sei sobre corpos deitados.
Deitar com um homem e levar a ele toda a minha carne.
E alguns dos meus prazeres foram tomados.
Completo, ansioso, molhado,
Como eu fico algumas vezes.
Estava sentindo falta de algo.
-Uma mão na minha.
- Não é minha mãe. Abraçou-me bem firme dizendo que seria sua menina.
-Não é uma mão no peito e na barriga.
Uma mão na minha.
A santidade de mim libertada.
-Uma noite fiquei acordada
Andando pelo piso do meu apartamento
Gritando, chorando
O fantasma de outra mulher
Que perdeu o que também perdi.
Eu queria saltar para fora dos meus ossos
Livrar-me de mim mesma.
Deixar-me sozinha e voar com o vento.
Era muito.
Eu caí em um entorpecimento
Até só conseguir ver árvores.
Me pegue em seus ramos,
Abrace-me com a brisa
Faça-me o orvalho do amanhecer
Da refrescante madrugada.
O sol
Me envolve
Espalhando luz rosa em todos os lugares
E o céu acima de mim
Como um milhão de homens.
Eu estava com frio...
Eu estava pegando fogo...
Uma criança tecendo infinitas peças de vestuário
Para a lua
Com as minhas lágrimas
Eu encontrei Deus em mim
E eu a amava intensamente.

(For Colored Girls, ‘Para garotas negras que já pensaram em suicídio’, depoimento de Crystal, cujo marido jogou os dois filhos do casal pela janela, matando-os, com algumas frases de outras mulheres inseridas no diálogo)


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

GÊNERO E EXCLUSÃO SOCIAL

                                                                   Izaura Rufino Fischer
pesquisadora da Fundação J. Nabuco
Fernanda Marques
professora da Univers. Estadual de Mossoró/RN


Introdução
                                 

A relação de gênero formada por homens e mulheres é norteada pelas diferenças biológicas, geralmente transformadas em desigualdades que tornam o ser mulher vulnerável à exclusão social. A exclusão que atinge a mulher se dá, às vezes, simultaneamente, pelas vias do trabalho, da classe, da cultura, da etnia, da idade, da raça, e, assim sendo, torna-se difícil atribuí-la a um  aspecto específico desse fenômeno, em vista de ela combina vários dos elementos da exclusão social. Desse modo, mais que qualquer outro assunto ligado ao feminino que se deseja analisar, dificilmente se poderá compreender a exclusão particular da mulher sem antes conhecer o fenômeno da exclusão e suas formas de manifestação. Diante de tal premissa serão expostas algumas informações sobre a exclusão social, que em seguida será relacionada com a questão do feminino.

 A exclusão social

O termo exclusão social, de origem francesa, toma vulto a partir do livro Les Exclus (1974), de autoria de Lenoir, que define os excluídos como aqueles indivíduos concebidos como resíduos dos trinta anos gloriosos de desenvolvimento. Seguindo as idéias de Lenoir, o estudioso brasileiro Hélio Jaguaribe, em meados de 80, prevê, a partir da pobreza crescente, a exclusão de contingentes humanos e a define como resultado da crise econômica que se inicia em 1981-83. Para este autor, a exclusão assume as feições da pobreza. O escritor e político brasileiro Cristovam Buarque (in Nascimento, 1996), seguindo a mesma perspectiva de compreensão, ao analisar a crise econômica,  publica escritos (1991, 1993 e 1994) que chamam a atenção para a ameaça à paz social. Segundo Buarque, a exclusão social  passa a ser vista como um processo presente, visível e que ameaça confinar grande parte da população num apartheid informal, expressão que dá lugar ao termo “apartação social”. Para ele, fica evidente a divisão entre o pobre e rico, em que o pobre é miserável e ousado enquanto o outro se caracteriza como  rico, minoritário e temeroso.
A exclusão social remonta à antigüidade grega, onde  escravos, mulheres e  estrangeiros eram excluídos, mas o fenômeno era tido como natural. Somente a partir da crise econômica mundial que ocorre na idade contemporânea e que dá evidência à pobreza é que a exclusão social toma visibilidade e substância.  A partir de 1980, os seus efeitos despontam, gerando desemprego prolongado e, parafraseando Castel (1998), os desafiliados do mercado passam a ser denominados de socialmente excluídos. A partir de então, este tema ganha centralidade nos meios acadêmicos e políticos.
A discussão sobre exclusão social, de acordo com Gary Rogers (In Dupas, 1999), apareceu na Europa com o crescimento da pobreza urbana, e sua orientação varia de acordo com as conjunturas políticas e econômicas das sociedades. Silver (in Dupas, 1999), tentando entender a problemática da integração social na Europa e nos Estados Unidos, seleciona três paradigmas, ligando cada um deles a uma filosofia política. Assim, o paradigma da “solidariedade” estaria associado ao republicanismo, sendo a exclusão vista como quebra de vínculo entre o indivíduo e a sociedade. Nesse paradigma cabe ao Estado a obrigação de ajudar na inclusão dos indivíduos. No da “especialização”, associado ao liberalismo, a exclusão se refere à discriminação. Nesse caso, o Estado deve garantir o trânsito do excluído nas categorias sociais. No  paradigma do “monopólio”, ligado a social-democracia a exclusão seria explicada pela formação de monopólios de grupos sociais.
De acordo com Rogers (In Dupas, 1999), a exclusão, em sua essência, é multidimensional, manifesta-se de várias maneiras e atinge as sociedades de formas diferentes, sendo os países pobres afetados com maior profundidade. Os principais aspectos em que a exclusão se apresenta dizem respeito à falta de acesso ao emprego, a bens e serviços, e também à falta de segurança, justiça e cidadania. Assim, observa-se que a exclusão se manifesta no mercado de trabalho (desemprego de longa duração), no acesso à moradia e aos serviços comunitários, a bens e serviços públicos, à terra, aos direitos etc. Silver, ao enumerar várias categorias de excluídos, reúne os velhos desprotegidos da legislação, os sem-terra, os analfabetos e as mulheres que, a nosso ver, apesar de excluídas como indivíduos, no espaço privado, devem levar apoio aos demais excluídos no âmbito da sociedade.   
A exclusão social da mulher é secular e diferenciada. A compreensão sobre a condição bipolarizada do sexo possibilita indicações dos nortes da exclusão social fundamentada na diferença. É sabido que o fenômeno da exclusão não é específico da mulher, mas atinge os diferentes segmentos da sociedade. É também notório que a exclusão não é provocada unicamente pelo setor econômico, embora se admita que este é um dos principais pilares de sustentação desse fenômeno. A exclusão é gerada nos meandros do econômico, do político e do social, tendo desdobramentos específicos nos campos da cultura, da educação, do trabalho, das políticas sociais, da etnia, da identidade e de vários outros setores.

A reprodução da exclusão social feminina

As relações entre homens e mulheres, ao longo dos séculos, mantêm caráter excludente. São assimiladas de forma  bipolarizada, sendo designada à mulher a condição de inferior, que tem sido reproduzida pela maioria dos formadores de opinião e dos que ocupam as esferas de poder na sociedade. Assim, segundo Alambert (1983), Platão, em A República, V livro, desenhava a mulher como reincarnação dos homens covardes e injustos. Aristóteles, em A História Animalium, afirmava que a mulher é fêmea em virtude de certas características: é mais vulnerável à piedade, chora com mais facilidade, é mais afeita à inveja, à lamúria, à injúria, tem menos pudor e menos ambição, é menos digna de confiança, é mais encabulada. Os ideólogos burgueses destacaram sua inclinação natural para o lar e a educação das crianças. Nesse sentido, Rousseau vê a mulher como destinada ao casamento e à maternidade. Kant a considera   pouco dotada intelectualmente, caprichosa indiscreta e moralmente fraca. Sua única força é o encanto. Sua virtude é aparente e convencional.
Esses são alguns dos atributos imputados à mulher, que reforçam a base da exclusão do feminino na sociedade e cuja reverssão tem tomado longo tempo das feministas na sua busca por construir conceitos de eqüidade entre os dois sexos, e tentando, dessa forma, tirar a mulher do ambiente propenso à exclusão. Essa iniciativa faz parte de uma guerra no campo das idéias que avança de forma heterogênea nas conjunturas sociais, econômicas, políticas e culturais em diversas partes do planeta.

A tradicional exclusão da mulher na esfera do trabalho

No campo do trabalho, a exclusão da mulher não encontra explicação nas conjunturas econômicas, pois suas raízes estão fincadas em matrizes diversificadas, a exemplo dos interesses do patriarcado em manter a mulher distante do patrimônio e numa relação hierárquica inferior, imputando-lhe a atribuição de prestar serviço social gratuito, de importante relevância para a sociedade pensada para o homem. A desconstrução dessa forma de exclusão da mulher e sua integração no mundo do trabalho se dão a partir do século XIX através do empenho e da luta feminista travada na sociedade mundial.
De acordo à narrativa histórica de Michel (1983), a penetração da mulher no mercado de trabalho  se dá pela via da filantropia que é usada pela mulher da classe dominante como reação para sair do isolamento do lar. Segundo a autora, a importância dada à vida familiar e à casa pelas classes médias, desde o século XVII, fortaleceu a ideologia dos papéis domésticos e educativos para o feminino. De igual modo, as mulheres dos meios populares reagem ao isolamento do lar, buscando alternativas de forma coletiva. Assim, saem juntas para exigir a paz, e como domésticas, denunciam ao parlamento seus horários exaustivos, sufocantes, enquanto as comerciantes protestam contra as prisões por dívidas.
Como se pode observar, a quebra do isolamento do lar e a participação da mulher no espaço público se deram por um processo de reações e conquistas que se arrasta até os dias atuais. Até mesmo a sua iniciação no trabalho remunerado, que se deveu a uma necessidade do capital de ampliar o seu consumo, ocorreu de forma desigual, pois ela não foi colocada no mercado apenas na condição de força de trabalho, mas também na de mulher estigmatizada e vítima de relações desumanas na esfera privada. Assim, como observam Bruschini e Rosemberg (1982), a atuação da mulher no mercado de trabalho se dá, até os dias atuais, em condições visivelmente desiguais e excludentes. O preconceito de inferioridade designado ao sexo feminino, durante séculos – através da religião, das leis, da escola e da família, onde, cotidianamente, a própria mulher reproduz a superioridade masculina através da educação familiar ou informal – é apropriado, inclusive, pelo capital e reproduzido nas relações de trabalho pelo mesmo sistema capitalista, que convoca a mulher para o mercado de trabalho remunerado e que a aceita como trabalhadora legítima.
No mercado, dada a sua condição de mulher (paciente, obediente, dedicada etc.),  vende a sua força de trabalho a preço mais baixo: o seu trabalho é considerado ajuda no orçamento familiar; concentra as atividades em setores extensivos do doméstico, a exemplo da educação, saúde, assistência social, enfermagem e têxtil; desenvolve tarefas dificultosas, que o homem, muitas vezes, se nega a fazer; e permanece distante das esferas de comando e decisão entre os próprios trabalhadores.
Na classe dos trabalhadores, a situação de desigualdade se repete. Os preconceitos que favorecem a reprodução de sua inferioridade (mãe, dócil, frágil, dedicada etc.) são apropriados pelos colegas masculinos, que, ao invés de acolhê-la como companheira, parceira, indivíduo, aceita-na na condição particular de mulher (Pateman, 1993).
Na interseção do público e do privado, a desvantagem feminina é total. O homem, de modo geral, ainda continua ausente na divisão das tarefas domésticas. Por não ter conquistado a eqüidade de gênero na esfera privada, ou seja, a participação do masculino nas tarefas da casa, a mulher assume uma carga de trabalho no espaço público semelhante ou mais exaustiva do que a do trabalhador masculino, e no âmbito privado cabe-lhe a responsabilidade da labuta da casa, do preparo do alimento, do cuidado dos filhos e sua educação informal, do cuidado dos velhos da família, da saúde dos familiares e, evidentemente, da reprodução biológica e física da força de trabalho (Bruschini, 1990). A contradição na super exploração das múltiplas jornadas de trabalho desempenhadas pela mulher se constrói no fato de que, mesmo se sacrificando para conciliar as várias tarefas cotidianas, essa trabalhadora descobre na esfera pública a trilha da sociabilidade, possibilitada pelo trabalho coletivo que lhe permite desconstruir preconceitos secularmente designados ao ser mulher e substituí-los por suas reais qualidades. No espaço da sociabilidade do trabalho, ela toma ciência de que pode gerenciar a  própria vida, pode exercer a chefia da família e, através do convívio coletivo, livra-se da timidez, aprende a sorrir e a criar sonhos (Fischer, 1997).

A reestruturação do trabalho e a exclusão da mulher

Mesmo na tempestade da globalização, a importância da mulher tem se tornado evidente. A lógica da globalização e das cadeias produtivas, muito oportunas para o capitalismo contemporâneo, incorporou os bolsões mundiais de trabalho barato, sem necessariamente elevar-lhes a renda. Os empregos formais crescem menos rapidamente do que os diretos. Quando o trabalhador encontra oportunidades bem remuneradas no trabalho flexível, exerce uma jornada que lhe rouba qualquer possibilidade de lazer e capacitação. O setor informal acumula o trabalho precário e a miséria. E especialmente nos países pobres,  os governos comprometidos  com a estabilidade não têm conseguido orçamentos suficientes  nem estruturas eficazes para garantir a sobrevivência dos novos excluídos (Dupas, 1999). 
Na conjuntura da reestruturação produtiva e implementação do projeto neoliberal, ou seja, no quadro que Mota (In Duque 2000) define como busca de estabelecimento de um novo equilíbrio instável, que tem como exigência básica a reorganização do papel das forças produtivas na recomposição do ciclo de reprodução do capital, tanto na esfera da produção como das relações sociais, a situação da mulher vem tomando visibilidade. O desemprego provocado pela chamada onda tecnológica tem levado a mulher a assumir cada vez mais a chefia da família. O homem, como tradicional provedor da família, cede lugar à mulher, que se torna provedora parcial ou total das necessidades da prole,  afirmando assim sua competência no desempenho da atividade masculina, mesmo numa conjuntura adversa e desigual. Elas permanecem ganhando, em geral, menos do que o homem e sujeitam-se a realizar tarefas em situação precária adequando-se à flexibilização do trabalho defendida pelo projeto neoliberal, como sugerem os seguintes dados do PNAD usados por Saffioti (1997). Em 1990, no topo da escala de salário estava o macho branco, em relação ao qual a mulher branca ganhava em média 55,3%; o homem negro 48,7%  e a mulher negra ou parda 27%. As diferenças convertidas em desigualdades alijam a mulher do exercício de atividades de maior prestígio e melhor remuneração.  É a  igualdade, num contexto social burguês, contribuindo para tornar o projeto neoliberal mais perverso. A igualdade pressupõe um ordenamento a ser alcançado através de políticas de eqüidade, pois são estas que consideram as diferenças e presumem as identidades. A diferença constitui uma face da identidade, ou seja, da relação entre o eu e os outros, sendo esta a forma de as diferenças serem construídas e percebidas. Nesse sentido, um indivíduo só pode ser portador e criador de conhecimentos, criador e executor de práticas quando se relaciona com os outros. A práxis é responsável pela construção das subjetividades que se objetivam por meio de novas práticas. Assim sendo, cada ser humano é a história de suas relações sociais. 

Exclusão e violência

As clivagens que sustentam a ordem burguesa e que contribuem para aprofundar as desigualdades carecem de uma nova conjuntura, composta por outra sociabilidade. Uma conjuntura em que todos tenham acesso aos bens e serviços produzidos socialmente e em que prevaleça, principalmente, educação igual para meninos e meninas, possibilitando a formação de comportamentos semelhantes nas relações de gênero. A educação, seja a informal doméstica, seja a instrução escolar, se constitui numa das bases da exclusão e da violência contra o feminino, disseminada  em vários contextos da sociedade. É a partir de detalhes sutis como os brinquedos infantis, a exemplo do carrinho, da arma e da boneca, que a criança é preparada para o espaço público, reservado ao masculino e, portanto, o mais violento, e o privado, reservado ao feminino, o da submissão. O carro e o revólver, simbolizando o espaço público, representam a violência, a decisão, o domínio etc. A boneca está associada ao trabalho da casa, ao fogão e à maternidade. Dessa forma, vão sendo atribuídas personalidades para homens e mulheres, gerando a necessidade da existência de um ser frágil - sensível, dócil -  para justificar o outro ser forte – provedor, agressivo, frio, intolerante, reiterando assim a cultura patriarcal e sexista e garantindo a assimetria entre os gêneros. Tal assimetria justifica desigualdades e exclusões e gera pólos de opressores e oprimidos, que se manifestam com maior visibilidade nas relações de gênero no espaço privado através do fenômeno universal da violência, que atinge de forma particular mulheres de diferentes partes do mundo e perpassa etnias,  raças e classes sociais. 
No Brasil, a violência exercida contra a mulher tem se constituído em preocupação de pesquisadores e pesquisadoras, juntamente com a luta pelo direito à cidadania nos âmbitos jurídico, educacional, sexual e econômico. Estudos sobre tal problemática revelam o seu caráter complexo e multidimensional, que se estende sem fronteiras por diferentes países e regiões sob vários ângulos, a exemplo da violência doméstica, o assédio sexual, o estupro, exploração sexual de crianças e adolescentes, e turismo sexual.

A luta feminista contra a exclusão da mulher

Um dos primeiros esforços das estudiosas feministas centrou-se na temática de estudo sobre a mulher, área que ainda sofria para impor sua legitimidade no campo universitário. Esses estudos eram tributários dos movimentos sociais dos anos 60 e 70 e resultantes da segunda onda do feminismo. Como expressão pública de uma luta manifestada em outros momentos, em razão da conjuntura internacional que favorecia as mudanças, o feminismo desenvolveu-se com força e organização que pareciam lhe garantir continuidade. Esse movimento, a partir da década de 80, toma novo direcionamento, enveredando para a formação de um novo conceito, o de gênero. 
Várias feministas envolvidas com a militância se iniciaram nos trabalhos de reflexão e produção acadêmica. O conceito de gênero, surgido no contexto anglo-saxão, passou a ser utilizado com o sentido de caracterizar uma relação.  Sem dúvida não tratava apenas de um novo rótulo, porém de opção por uma mudança de ordem epistemológica, ou seja, uma via teórica. A desvinculação da militância não se deu de imediato, e as mulheres permaneceram centradas no eixo da denúncia da opressão, que tinha um caráter mais descritivo do que analítico.  Gradualmente, o recorte analítico ganha espaços, e as feministas realizam análises consistentes nos campos da sociologia, da história, da literatura e da educação.
Ao voltar-se para si próprio, as estudiosas do feminismo tentam construir um conceito de gênero desvinculado do sexo, que se referia à identidade biológica de uma pessoa. Gênero é construção social do sujeito masculino ou feminino. Nesse sentido, Joan Scott (1989), associando a categoria gênero aos limites das correntes teóricas do patriarcado, do marxismo e da psicanálise, tenta explicar a subordinação da mulher e a dominação dos homens. Aquela autora analisa o gênero como elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças entre os sexos e como a primeira forma de manifestar poder a partir de quatro dimensões inter-relacionais: simbólica, organizacional, normativa e subjetiva.
A dimensão simbólica enfatiza as representações múltiplas e contraditórias, a exemplo de Maria evocando pureza e bondade, e Eva simbolizando o pecado, o mal.
A dimensão normativa evidencia interpretações do significado dos símbolos que tentam limitar e conter suas possibilidades metafóricas, ou seja, conceitos que são expressos nas doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas e jurídicas que trazem duplo sentido na definição do masculino e do feminino.
A dimensão organizacional diz respeito às organizações e instituições sociais como mecanismos que aprofundam as assimetrias entre os gêneros.
A dimensão subjetiva versa sobre as necessidades de examinar as maneiras como as identidades de gênero são construídas e relacionadas com atividades organizacionais, sociais e representações culturais historicamente situadas. 
Joan Scott fundamenta suas abordagens nos seguintes eixos teóricos:
a.       a.      As relações de gênero possuem uma dinâmica própria, mas também se articulam com outras formas de dominação e desigualdades sociais (raça, etnia, classe).
b.       b.      A perspectiva de gênero permite entender as relações sociais entre homens e mulheres, o que pressupõe mudanças e permanências, desconstruções, reconstrução de elemento simbólicos, imagens, práticas, comportamentos, normas, valores e representações.
c.        c.      A categoria gênero reforça o estudo da história social, ao mostrar que as relações afetivas, amorosas e sexuais não se constituem realidades naturais.
d.       d.      A condição de gênero legitimada socialmente se constitui em construções, imagens, referências de que as pessoas dispõem, de maneira particular, em suas relações concretas com o mundo. Homens e mulheres elaboram combinações e arranjos de acordo com as necessidades concretas de suas vidas.
e.        e.      As relações de gênero, como relações de poder, são marcadas por hierarquias, obediências e desigualdades. Estão presentes os conflitos, tensões, negociações, alianças, seja através da manutenção dos poderes masculinos, seja na luta das mulheres pala ampliação e busca do poder.
Outra autora que traz importante contribuição à temática do gênero é Teresita Barbieri (1992), que centra sua análise nos limites teóricos do patriarcado, desenvolvendo estudos sobre as condições de vida, de trabalho e sobre a cultura produzida pela mulher. Além disso, tece suas considerações sobre a sociedade como elemento gerador da subordinação feminina, enfatizando, ainda, que é da sociedade que surge e se expande a categoria gênero.
Como se pode observar, Scott e Barbiere compartilham da idéia de que o gênero se instaura questionando ordens epistemológicas, atravessando territórios interdisciplinares, efetivando o diálogo entre o movimento social (o feminismo) e a academia.
Tendo realizado o feito de formular um conceito de gênero que ilustra as diferenças reais entre homens e mulheres, ou seja, a de origem biológica e a cadeia de desigualdades socialmente construídas a partir das diferenças, os movimentos feministas tentam dar visibilidade às restrições impostas à mulher nos diversos segmentos da sociedade.
As restrições impostas à mulher dão lugar a um processo de exclusão que freqüentemente se ancora nas diferenças. Essa idéia da diferença permeia discursos hegemônicos, estando presente em falas sobre as desigualdades de gênero, impedindo que se lide adequadamente com o que distingue homens e mulheres. Diferença faz par com identidade, assim como desigualdade o faz com igualdade. No pensar de Laurentis (1987), o ser humano, ao tornar-se o “sujeito múltiplo”, percebe suas identidades sociais básicas (gênero, raça, etnia) e, por conseguinte, as diferenças que apresentam entre si.
No entanto, como são típicos da ideologia, os fenômenos são apresentados de forma inversa, traduzindo desigualdade por diferença, inversão que está, muitas vezes, presente nas esferas dos valores, crenças, benefícios, direitos e privilégios. Segundo Saffioti & Almeida (1995), “Rigorosamente, toda diferenciação, seja da natureza, seja da sociedade, é positiva, porquanto representa enriquecimento. Representações sobre a diferença podem ser apropriadas pela ideologia” e transformadas em estigmas, portanto, em algo negativo, conforme tem ocorrido com o feminino ao longo dos séculos.

Considerações finais
O desafio de romper o esquema binário, em que o masculino e o feminino se constroem na oposição um ao outro, tem sido desafiante para o movimento feminista, que se propõe a desmontar um esquema construído numa lógica patriarcal que dificulta a percepção e construção de mundo de outras formas. Algumas das estudiosas do feminismo, a exemplo de Joan Scott, se apropriam de teorizações pós-estruturalistas da desconstrução, como a de Derrida - para o qual o pensamento ocidental vem operando na base de princípios expressados pela hierarquização de pares opostos - para pensar as relações de gênero.
A proposta de desconstrução é, pois, a de desmontar a lógica das oposições binárias do pensamento tradicional, evidenciando que estas são históricas e socialmente construídas, e rejeitar o caráter fixo e permanente da oposição binária de uma historicização genuína em termos de diferença sexual, dando visibilidade aos sujeitos diferentes. A descontrução da polaridade masculino/feminino poderá ser útil para desmontar a lógica binária que rege outros pares de conceitos a ela articulados, tais como público/privado produção/reprodução, cultura/natureza etc. No processo de desconstrução, é necessário atentar para o fato de que o oposto da igualdade é a desigualdade, ao invés da diferença. Ao lado da proposta de desconstrução, está a de construir a lógica da diferença como elemento positivo, pautado na identidade e sem a desigualdade, considerando a diferença dos termos, mas mostrando que um está presente no outro, e portanto, ambos podem ser equivalentes. As diferenças entre homens e mulheres, ao se afirmarem, rompem a unidade, impossibilitando a existência de uma identidade masculina e de uma outra identidade feminina. Elementos como classe, etnia, religião, idade etc. atravessam a pretensa  unidade de cada elemento do par, transformando em múltiplo o sujeito masculino ou feminino pensado no singular.











Biblografia

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